Por que querem os pilotos da F1 ganhar peso neste ano?

São cada vez mais os pilotos da Fórmula 1 que vão anunciando a necessidade de ganharem uns quilos para a temporada que vai começar daqui já a menos de dois meses. E porquê? Porque as corridas vão ser mais exigentes a nível físico. E porquê? Porque os carros serão mais rápidos.

As estimativas já realizadas anunciam um ganho de até cinco segundos por volta em resultado do aumento do tamanho dos pneus e das asas, em que a traseira não só cresce em largura como fica mais baixa em relação ao solo.

Os monolugares terão assim uma pressão aerodinâmica («downforce») aumentada permitindo-lhes fazer as curvas com uma maior velocidade – às vezes como se de uma recta se tratasse – com valores estimados de aumento na ordem dos 40 km/h.

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A questão é que as curvas continuam lá. E a Física também. Quer isto dizer que curvar mais rápido com o carro vai pesar mais sobre o piloto que o conduz. É o resultado do que é conhecido como força-g. A força-g é uma medida de aceleração – 9,8665 m/s2 em concreto –; não de peso. Mas a sua verificação pesa – literalmente.

Ou seja, a aceleração é relacionada com a gravidade e quanto maior é mais peso impõe a quem a realiza: é o que geralmente se caracteriza como 1 ou 2 ou 3 (e assim sucessivamente) «G» (de força). Como exemplo, os pilotos de um avião «caça» a jato são tidos como preparados para suportar até 9 G durante algum tempo – limite de perda de consciência.

Se no caso extremo de um acidente de carro os G podem ser de centenas, uma bofetada pode impôr dezenas de G, mesmo que seja durante apenas uma fração de segundo. Tossir pode implicar cerca de 3 G nesse movimento. Pelo contrário, no espaço, os astronautas experienciam 0 G na ausência de gravidade. A força-g imposta e a sua duração vão gradualmente desde o tolerável pelo corpo humano, às lesões irreversíveis e à morte.

Os pilotos de fórmula 1 são também eles sujeitos a forças-g quando guiam em pista. E quando é que este peso pode acentuar-se? Em curva. Os pilotos enfrentarão cerca de 2 G em aceleração, cerca de 5 G em travagem e entre 4 a 6 G a curvar. O aumento de velocidade em 2017 poderá elevar a força-g em curva na ordem dos 25%…

E é aqui que entra a necessidade de ganhar peso. Mas não um peso qualquer. Gordura não serve. É preciso ganhar peso com massa muscular. Assim já o disseram Kevin Magnussen e o seu preparador físico. Disso está consciente Valtteri Bottas.

Magnussen fala em ganhar três quilos, Esteban Ocon em «cinco quilos de músculo», Carlos Sainz Jr. em «quatro». As variações dependerão também, obviamente, da constituição física (peso já existente, altura, etc.) de cada um. Mas, além do ponto comum que é ganhar músculo (para os que precisam), há outros.

«O aumento da força-g em corrida vai exigir uma maior estabilização do corpo, da coluna, mas, sobretudo, do pescoço e da cabeça. Os músculos da posição sentada têm de estar mais fortes e resistentes. Mas, sobretudo, os do pescoço e da cabeça, para resistirem à força-g», salienta ao Autoportal o preparador físico António Gaspar.

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Estarão de volta os pescoços de touro que caracterizavam os pilotos de Fórmula 1 há não muitos anos?

Neste caso de Fórmula 1, Maria Filomena Vieira aponta ao Autoportal que «o que interessa é a massa muscular para que consigam resistir à força externa que vai projetá-los». E, da mesma forma, a professora da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa frisa que «o ganho de peso tem de ser em massa muscular [não só para não serem projetados, mas] também para contrabalançar a força que seja estabelecida contra o seu corpo».

Ou seja, nos movimentos de aceleração, de travagem ou no peso imposto em curva; sobretudo sobre o pescoço e a cabeça.

António Gaspar explica que os pilotos de F1 «trabalham com exercícios muito próprios» privilegiando «os músculos posturais e na articulação da coluna cervical». O preparador e recuperador físico português acompanhou Pedro Lamy nos tempos do piloto na Fórmula 1 e sabe como estes profissionais «estão muito bem preparados para que os músculos suportem durante muito tempo a força elevada a que vão estar sujeito numa prova».

Com as exigências físicas dos novos carros, como já admitiu Esteban Ocon, «é preciso intensificar a preparação para estar em forma nos testes que começam no final de fevereiro». É que o Mundial arranca a 26 de março na Austrália, mas os testes de pré-época começam já a 27 deste mês em Barcelona.

E é preciso começar a puxar pelo físico o quanto antes, mesmo que isso passe a fazer parte do programa das férias nesta altura de defeso. Como Daniel Ricciardo já partilhou.

António Gaspar refere que os pilotos da F1 terão de «melhorar a performance física em algumas zonas mais seletivas do corpo humano» e que «quanto mais cedo melhor, pela progressividade da preparação». Mas o especialista português lembra também que «eles tem um nível elevadíssimo [de preparação]e entre quatro a seis semanas deverão conseguir» resultados de um «trabalho muito específico do pescoço, da correção da postura, de força, dos músculos das mãos…»

A regra, portanto, vai ser uma grelha de partida muito bem constituída fisicamente. Os tempos de pilotos delgados, para que alguns quilos a menos significassem uns décimos também a menos por volta quando os carros tinham um peso mínimo limite, serão uma lembrança da história. Vai haver seguramente mais pescoços de touro, com exceção para os que já os tenham. Em 2013, Fernando Alonso respondia assim num chat a um leitor que lhe perguntou quanto media o seu pescoço: «Hehehe… Não és o primeiro que pergunta: 41 centímetros de perímetro.»

Por Pedro Calhau

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