Entrevista com Michael Schumacher: "Sinto-me como se tivesse 12 anos"

O heptacampeão mundial revela que o contrato com a Mercedes GP é válido por três anos – depois vai assumir o papel de embaixador da marca alemã
25/12/2009 em Velocidade

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Entrevista com Michael Schumacher:

Poucas horas depois de ter assinado com a Mercedes GP o contrato que oficializa o seu regresso à Fórmula 1, Michael Schumacher deu uma entrevista ao site oficial da competição, confirmando que o compromisso é válido para os próximos três anos e que o contrato prevê que se mantenha depois como embaixador da Mercedes-Benz.

Para além do recorde de sete títulos conquistados na Fórmula 1, Michael Schumacher (nasceu em Hurth-Hermulheim a 3 de Janeiro de 1969) conta com 250 Grandes Prémios disputados, 91 vitórias, 68 'pole positions' e 154 presenças no pódio. Aos 41 anos, o piloto alemão será o mais velho em pista no Mundial 2010.

Formula1.com – Michael, bem-vindo de volta à Fórmula 1. A sua assinatura no contrato praticamente ainda nem secou – pode adiantar alguma coisa sobre o seu conteúdo?

Michael Schumacher – É verdade, o acordo foi concluído há poucas horas. Em relação à pilotagem, o período é de três anos. Nunca houve intenção de fazer só um ano. Depois disso, há uma opção para ser embaixador da marca Mercedes.

P – Então está nos seus planos correr durante três anos?

MS – Correcto.

P – Como foram estas últimas semanas de negociações? Houve alguma excitação, ou a F1 endureceu-o e este é apenas mais um episódio?

MS – Endurecer? Nada disso. Nesta manhã, quando estava a falar com o meu novo engenheiro, senti-me como um miúdo de 12 anos, a saltar de excitação com a perspectiva de um novo brinquedo. Estou muito excitado – não consigo parar de o repetir. É verdade que vou fazer 41 anos, mas a combinação do Ross [Brawn] com a Mercedes é algo em que acredito – e também acredito em mim. Nunca tive um único momento de dúvida.

P – Qual foi a sua motivação para regressar?

MS – Bem, foi tudo muito simples. No fim de Novembro recebi um telefonema do Ross, relativamente à possibilidade de voltar a correr. Tendo recebido esse telefonema e a informação que a Mercedes estava envolvida, estava feito. Praticamente nunca deixei as pistas de corridas até 2006, nessa altura estava bastante cansado, com falta de motivação e energia. Três anos de ausência recarregaram as minhas baterias e, depois de brincar com as motos, os karts e esse tipo de coisas, sinto-me outra vez pronto para coisas sérias.

P – Ao fazer planos para correr durante três anos, deve estar muito seguro de ter ultrapassado os problemas com o seu pescoço...

MS – Claro, essa questão era crucial para mim, depois dos problemas sentidos no Verão. Antes de ter o OK final, trabalhei fisicamente para ter segurança – e agora sei que o pescoço deixou de ser um problema. Infelizmente não estava pronto no Verão, quando tentei substituir o Felipe [Massa, na Ferrari], porque estava muito próximo do acidente [de moto, sofrido no início do ano].

P – Aos 40 anos, ainda tem aquele feroz desejo de ganhar que o destacou, vontade de lutar roda com roda com pilotos como Fernando Alonso e Lewis Hamilton?

MS – Tenho a certeza absoluta. Depois daquele acidente de moto, quando voltei a andar de kart pela primeira vez, rapidamente retomei o ritmo. Claro que isso prova pouco e terei de o demonstrar num carro a sério. Se isso significar andar roda com roda com eles, então será excitante. Estou ansioso por isso. Ouvindo as opiniões do exterior, parece que toda a gente está convencida que ainda tenho aquilo que é preciso.

P – Foi difícil deixar a Ferrari e voltar para a Mercedes?

MS – Honestamente, não foi um passo fácil de dar. Tenho muitos amigos na Ferrari e fantásticas recordações do tempo que passei com eles. Mas o Luca di Montezemolo [presidente da Ferrari] ajudou a tornar tudo mais fácil numa conversa que tivemos. Ele sabia que eu tinha ficado muito desapontado no Verão, quando as minhas condições físicas não permitiram que terminasse a temporada com a Ferrari. Devido aos contratos de longo termo [com outros pilotos], a Ferrari não estava em posição de me oferecer mais. Provavelmente, a única razão para regressar agora foram os pedidos de velhos amigos e a oportunidade de retribuir à Mercedes o seu apoio na minha juventude.

P – A possibilidade de substituir o Felipe foi a faísca que deflagrou o seu desejo de voltar, ou esse desejo já existia há algum tempo?

MS – Pode dizer-se que foi o cenário da substituição que começou tudo.

P – Não tem medo de colocar em causa toda a sua reputação? As pessoas vão julgá-lo pelo que fez antes...

MS – Espero que as pessoas me julguem pelo que fiz antes. Estou numa equipa que ganhou os dois campeonatos neste ano, portanto o único caminho é defender esses dois títulos. É verdade que vai haver uma competição muito dura – e prevejo que será muito apertada, como neste ano – e estou entusiasmado por estar de regresso nessas condições.

P – Falou com a sua família antes de decidir regressar?

MS – Obviamente. Dar um passo destes obriga a resolver primeiro a nossa situação pessoal. Na família, não houve dúvidas de que o deveria fazer. A minha mulher sempre quis ver-me feliz e quando lhe perguntei a opinião, ela viu o brilho nos meus olhos e não tentou demover-me nem por um segundo. Ela disse “vai e diverte-te”.

P – Foi infeliz nestes três anos afastado da competição?

MS – Como já expliquei, no final da temporada 2006 perdi motivação e energia, portanto abandonar era a decisão mais lógica. Nessa altura estava certo que estava feito, não imaginava a possibilidade de um regresso. Ter uma equipa como a que temos agora estava para além da imaginação, mas quando se tornou realidade e me perguntaram se queria fazer parte dela, fiquei absolutamente entusiasmado. Porque não?

P – Num inquérito rápido feito hoje de manhã na Alemanha, depois da notícia do seu regresso, 70 por cento dos inquiridos disseram ter a certeza de que vai lutar outra vez pelo título. Partilha esse sentimento?

MS – Vamos esperar que eles tenham razão.

P – Espera que a competição seja mais dura do que há alguns anos?

MS – Provavelmente mais apertada, sim. Mais dura? Não, porquê? Sempre existiram bons pilotos [na F1], e isso nunca vai mudar. Eu vejo possibilidades de me integrar nesse grupo, é por isso que estou a regressar.

P – Nas últimas semanas esteve a praticar no simulador? E espera que os carros sejam muito diferentes daqueles que conheceu até 2006?

MS – Não estive em nenhum simulador, com excepção do meu aparelho pessoal. É verdade, os carros serão ligeiramente diferentes, mas ao longo dos anos pilotei muitos carros com diferentes características. Isso é algo que vejo com um dos meus trunfos mais fortes – ser capaz de me adaptar.

P – Como compara o seu actual nível de preparação física com o que tinha em 2006?

MS – Não tenho dúvidas que vou alcançar o mesmo nível de quando estava na F1, há três anos. Nunca deixei de trabalhar a minha preparação física, isso nunca foi uma preocupação.

P – Não é segredo que é um pouco mais velho do que os seus adversários. Regressar, ganhar corridas e possivelmente ganhar mais um título – seria a maior conquista da sua carreira?

MS – Seria certamente uma experiência única e uma conquista excepcional. Mas, primeiro, deixem-me entrar no carro e depois voltamos a falar.

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